2016

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sábado, 16 de fevereiro de 2013

EU NÃO SOU CACHORRO NÃO - VÁRIOS - 2004

Recentemente eu reli um dos livros mais interessantes e emblemáticos sobre a música brasileira, principalmente daquela da fase da Jovem Guarda e da chamada “Música Brega”, um termo que considero preconceituoso e fora de propósito. Trata-se do livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, do autor historiador Paulo César de Araújo, de 458 páginas, editado em 2002, pela Editora Record.

O mundo editorial de música brasileira é limitado, com poucas publicações, até porque o público interessado também é restrito. Dos livros que já foram editados, em minha opinião, esse é um dos melhores, principalmente pela direção que toma.

Não é exatamente um livro apenas sobre música em geral. O autor defende uma causa que nunca ninguém abordou, uma vez que são temas delicados, considerando o contexto da época. Ele revela como os cantores considerados “cafonas ou bregas” dos anos 1970, justamente no período do militarismo do Brasil, foram censurados, apanharam da direita e também enfrentaram exílio.

O autor mostra no livro comentários de Waldick Soriano sobre tortura, Odair José manifestando sobre maconha, além de mencionar relatos de outros artistas da época, como Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho e Dom e  Ravel

Artistas considerados bregas, como Odair José e Waldik Soriano sempre apareceram no topo da lista dos discos mais vendido. Veiculados em rádios, frequentavam os programas de auditório, mas não receberam o devido respeito e espaço em livros e teses, pois frequentemente eram associados à ditadura militar.

No livro “Eu Não Sou Cachorro Não”, Paulo César de Araújo preenche essa lacuna na histografia da música popular brasileira e mostra como figuras demonizadas por aderirem à cultura oficial durante os anos de chumbo, na verdade, foram tão ou mais perseguidas pelo regime quanto os artistas de esquerda.

A produção musical brega (ou cafona) faz parte da realidade cultura brasileira, tanto quanto o tropicalismo e a bossa nova e segundo o autor merece ser analisada. O material do livro aborda três aspectos do papel de resistência desempenhado por esses artistas. Em primeiro lugar, é analisado como muitas letras trazem a denúncia ao autoritarismo e à segregação social. Por exemplo, a canção O Divórcio, de Luiz Airão, que a princípio se chama Treze Anos, pode ser lida tanto como um desabafo de um homem infeliz quanto um protesto ao regime militar.

O autor compara a produção musical dentro do contexto histórico, dando especial ênfase ao Ato Institucional - AI5 (decreto emitido pelo governo militar). É lembrado que a maioria desses cantores vivenciou o trabalho infantil: Nelson Ned e Agnaldo Timóteo foram engraxates. Paulo Sérgio foi alfaiate.

Também há histórias que só agora chegam ao público. Como a vez que Odair José teve a música A Primeira Noite (que aborda sobre a primeira experiência sexual de um garoto) censurada e, para escapar do veto, apenas trocou o título para Noite de Desejos e passou incólume pelas autoridades. Por sinal, Odair José era campeão de vetos da censura federal. Sua canção Pare de Tomar a Pílula foi proibida de ser executada nas rádios brasileiras e em toda a América Latina.

Mas Odair José não foi o único a ser censurado. O cantor Fernando Mendes teve a música Tributo a Carlinhos proibido, já que ela poderia ser interpretada como referência aos presos políticos. Para quem não sabe ou não se lembra, o menino Carlinhos tinha desaparecido sem deixar pistas, na década de 1970, num caso policial célebre e não resolvido até os dias atuais

Máximas de Waldik Soriano – a mulher é como a música. A música serve para limpar a alma, a mulher para limpar a casa – também estão presentes no livro. Assim como situações que beiram a tragicomicidade: Nelson Ned passava por baixo da roleta de ônibus por não ter dinheiro para pagar a passagem. Em brincadeira, segundo ele, isso não era difícil.

Essas histórias resgatam artistas que, entre 1968 a 1978, se destacaram no cenário artístico nacional. Paulo César explica que apesar de esquecida, nossa música popular cafona permanece guardada em estruturas de comunicação informais. Atire a primeira pedra quem nunca cantarolou uma letra de música popular dessa época. Apesar de gosto duvidoso, as melodias fazem parte do patrimônio afetivo de milhares de brasileiros. Músicas como Eu Não Sou Cachorro Não, Pare de Tomar a Pílula e Cadeira de Rodas fazem parte do repertório de um Brasil de excluídos, um país mergulhado na ditadura militar e sacudido tanto por marchas moralistas de apoio à família, a propriedade e à Igreja, quanto pela guerrilha urbana.

Paulo César de Araújo, baiano nascido na cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, é historiador e mestre em Memorial Social. Quando escreveu o livro atuava como professor de História, no ensino fundamental e médio, da rede pública do Estado do Rio de Janeiro.

Fontes: Carta Capital e Resenha Editora Record

Nesta postagem aproveitamos para compartilhar uma versão digital do livro e o álbum “Eu Não Sou Cachorro Não”, lançado em 2004, pela gravadora Universal Music, que continha 14 músicas, consideradas emblemáticas pelo autor. As músicas do álbum são:
1. Torturas de amor (Waldik Soriano);
2. Em qualquer lugar (Odair José);
3. Não creio em mais nada (Paulo Sérgio);
4. A cruz que carrego (Evaldo Braga);
5. Retalhos de cetim (Benito di Paula);
6. Viagem (Odair José);
7. Eu queria ser negro (Marcus Pitter);
8. Você também é responsável (Dom & Ravel);
9. A galeria do amor (Agnaldo Timóteo);
10. Uma vida só - Pare de tomar a pílula (Odair José);
11. Brasileiro no meu calor (Sidney Magal);
12. Garoto de rua (Balthazar);
13. Eu não sou cachorro não (Waldik Soriano);
14. Vou tirar você desse lugar (Odair José & Caetano Veloso).














Paul César de Araujo - Autor livro "Eu Não Sou Cachorro Não"



Caetano Veloso e Odair José - Evento Phono 73



 Música vetada pela Censura



Capa do Livro "Eu Não Sou Cachorro Não"



Contra Capa do Livro "Eu Não Sou Cachorro Não"

2 comentários:

  1. Espetacular comentário e grande postagem. Essa é a verdadeira MPB, a que o povo conhece e canta (sem fazer juízo de valor); não aquela cujos "astros" têm de popular apenas seus próprios nomes já que a intelectualidade os endeusa e não - como deveria ser - seus repertórios.
    Uma pequenina correção: o caso Carlinhos transcorreu na década de 70 (1973 em diante) e nunca solucionado.

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    1. Valeu Druca...
      já foi corrigido a década.
      Hedson LaPlaya

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