2016

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL - 1962

Na noite de 21 de novembro de 1962, uma quarta-feira chuvosa, a Bossa Nova viveu um dos capítulos mais importantes da sua existência. Mudaria o rumo da sua história e dos seus principais protagonistas. Era a noite da Bossa Nova para os americanos verem e ouvirem ao vivo e a cores, num dos seus maiores templos culturais dos Estados Unidos: o Carnegie Hall, de Nova York.

Aconteceu graças ao empenho da gravadora americana Audio Fidelity e do governo brasileiro, através do Itamaraty e o show foi cercado de muitas polêmicas e incertezas. E curiosamente, a imprensa brasileira fez pouco caso com o grande evento, inclusive prevendo um possível fiasco. Claro que nada disso aconteceu, embora algumas falhas e deslizes naturais tenham acontecido. Que ao final, não prejudicaram o conjunto da obra.

O planejamento dessa apresentação começou meses antes do show, quando o executivo da gravadora Audio Fidelity, Sidney Frey veio ao Brasil e conheceu pessoalmente o famoso Beco das Garrafas e os principais artistas que por lá se apresentavam. A sua pretensão inicial previa apenas a apresentação de Tom Jobim e João Gilberto. Depois mudou de ideia e reuniu um time bem diversificado.

Os músicos brasileiros que se apresentaram, na época, tinham pouco mais de vinte anos de idade e para lá foram Antonio Carlos Jobim, João Gilberto, Luiz Bonfá (os únicos que já tinham algum prestígio) e mais Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Chico Feitosa, Milton Banana, Sérgio Ricardo, Normando Santos, Dom Um Romão, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos, Carmen Santos, Bola Sete, Ana Lúcia e vários outros desconhecidos.

Na plateia lotada por mais de três mil pessoas, alguns nomes da primeira linha do Jazz: o cantor Tony Bennett, os trompetistas Dizzy Gillespie e Miles Davis, os saxofonistas Gerry Mulligan e Cannonball Adderley, o flautista Herbie Mann, o The Modern Jazz Quartet. E muitos deles, inclusive foram recepcionar o time de músicos brasileiros no aeroporto quando eles chegaram a solo americano. Quanta deferência para os brasileiros e dias depois, os músicos americanos puderam beber direto da fonte o ritmo e o tempero contagiante da Bossa Nova. E uma grande prova de que a Bossa Nova influenciou o Jazz e vice-versa.

A primeira consequência imediata deste show, o fato de muitos destes músicos americanos gravarem o repertório da Bossa Nova e isso serviu para que o gênero ganhasse o mundo e rompesse as suas fronteiras territoriais. A segunda e mais marcante, determinou que alguns dos músicos brasileiros trocassem o Brasil pelos Estados Unidos. Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes e Tom Jobim e João Gilberto abriram mercado por lá imediatamente depois daquela apresentação.

E em razão disso, a turma da Bossa Nova se desfez e cada um seguiu por si a sua trajetória musical. As famosas reuniões que aconteciam na cidade do Rio de Janeiro nas casas de Nara Leão, Benê Nunes e do Tom Jobim não aconteceram mais. Não tocaram nem cantaram mais juntos, como sempre faziam prazerosamente.

O áudio deste show foi lançado em disco nos formatos Long Playing – LP e posteriormente em Compact Disc - CD e hoje é um produto raro de encontrar no mercado, mas recomenda-se a sua procura. A qualidade sonora das gravações deixa um pouco a desejar, mas o que vale é o registro histórico.

O repertório traz algumas pérolas como Samba de Uma Nota Só com o sexteto de Sérgio Mendes, Influência do Jazz com o Quarteto de Oscar Castro Neves, Manhã de Carnaval e A Felicidade com Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá e Quarteto de Oscar Castro Neves, Influência do Jazz com Carlos Lyra, O Barquinho com a antológica gravação de Roberto Menescal (que marcou em grande estilo sua estreia e aposentadoria no mesmo instante como cantor, como ele mesmo descreveu nos seus livros) e Outra Vez com João Gilberto e Milton Banana.

Curiosamente, a participação de Tom Jobim não foi registrada na versão lançada. Uma pena, pois quem esteve lá garantiu que foi uma das apresentações mais marcantes.

A partir daquela noite, a Bossa Nova não foi mais a mesma. E não poderia ser diferente. Um momento lindo e marcante na história da Música Popular Brasileira, que este ano completa cinquenta e um anos. Até parece que foi ontem.

Fonte: extraído de:
http://www.digitaljazz.com.br/artigos/_a_bossa_nova_no_carnegie_hall__1962?a=128

  
TEXTO NO ENCARTE DO ÁLBUM “BOSSA NOVA NO CARNEGIE HALL”

A história do concerto registrado neste disco é a própria história do comentadíssimo concerto de Bossa Nova do Carnegie Hall, de New York, na noite de 21 de novernbro de 1962.

Quando Sidney Frey, Presidente da Audio Fidelity americana, veio ao Brasil, dois meses antes do Festival, com a finalidade de convidar alguns artistas brasileiros para participarem no concerto de Bossa Nova do Carnegie, conseguiu obter apenas a participação positivada de João Gilberto e Milton Banana, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos, Conjunto de Oscar Castro Neves e rnais Carmen Costa, José Paulo e Bola Sete, que estavam nos Estados Unidos. O show seria completado com músicos de jazz americanos, na segunda parte do programa.

Apesar da chegada inesperada de mais de uma dúzia de artistas brasileiros, às vésperas do concerto, realizou-se um verdadeiro "milagre" para incluir a todos no Festival, sem prejuízo da parte cênica. Mais ainda, devido ao espetacular sucesso do Festival, todas as agências noticiosas queriam dar "cobertura" ao acontecimento. Daí acrescenta-se aos cinco microfones da Audio Fidelity, os microfones do teatro (para som interno), da CBS News, da Voice of America, da U. S. Information Agency, etc., dando a aparência de uma "floresta" de microfones, o que apenas demostra o interesse pela nossa moderna música popular. Os ingressos já estavam esgotados dois dias antes do concerto e calcula-se que 1.000 pessoas ficaram na rua, na chuvosa noite de 21 de novembro de 1962.

Os aos brasileiros foram delirantemente aplaudidos e o público norte-americano dispensou o melhor carinho nossos patrícios. Se houve dúvidas a respeito, este disco é um verdadeiro documentário vivo e incontestável desse notável feito da nossa música. Apenas dois repórteres
brasileiros estiveram presentes a essa inesquecível noite de festa da música brasileira nos Estados Unidos: Walter Silva (o conhecido "Pica-Pau") e Sylvio Tullio Cardoso. Aqui está o relato de ambos sobre o que foi a "Noite de Bossa Nova" no Carnegie Hall. A audição do disco completará o relato dos dois renomados cronistas.

Relato de : Sylvio Tullio Cardoso (O Globo, Rio de Janeiro):

Tudo começou em setembro. Setembro de 1962. Sidney Frey - que realizava na ocasião uma de suas habituais visitas ao Brasil - convocou os cronistas para um "cocktail", durante o qual iria fazer uma importante comunicação. A moçada foi reunida, então, no Salão Verde, do Copa. Depois de muito papo e muito scotch, o velho Frey largou a bomba: havia alugado o famoso Carnegie Hall de Nova York para um festival de "bossa nova". O show seria na noite de 21 de novembro. Participariam - além dos músicos norte-americanos, que já estavam tocando o novo samba brasileiro, como Stan Getz, Gary MacFarland e Lalo Schiffrin - vários solistas e cantores do Rio e São Paulo.

Desde esse coquetel, que não se falou outra coisa no Rio senão no Festival do Carnegie Hall. Não seria certamente a primeira vez que as portas do célebre templo de música erudita iriam-se abrir pra apresentar "por music". Dezenas de jazzistas, cantores populares e folclóricos já haviam pisado o palco do Carnegie. Mas era, sem dúvida, a primeiríssima vez que a música popular brasileira teria a sua noite na austera sala de concertos da rua 57. Bossa Nova no Carnegie Hall!

"Não é possível!" - diziam uns. "É onda ... " - diziam outros. Mas a verdade é que na chuvosa noite de 21 de novembro de 1962 as portas do Carnegie se abriram para receber perto de 3 mil "modern music enthusiasts", que estavam ávidos para ter um contato ao vivo com a música de Jobim, Bonfá, Menescal, Castro Neves e João Gilberto. Oficialmente, estavam programados para atuar - como os "posters" pregados nas paredes do Carnegie anunciavam - apenas João Gilberto, Oscar Castro Neves & Conjunto, Bola Sete, Carmen Costa, José Paulo,
Lalo Schiffrin e Stan Getz. Dois dias antes do festival, no entanto, já estavam em Manhattan perto de uma dezena de outros músicos e cantores do Rio e São Paulo.

Se cada um fizesse dois números, o concerto duraria aproximadamente quatro horas. Frey anunciou que se o show acabasse um minuto após a meia-noite, teria que pagar "overtime" ao Carnegie Hall. Pensou-se então dar dois concertos: um às 8 e meia e outro à meia-noite. A ideia foi, porém abandonada porque já estava muito em cima. Com a intervenção de empresários, managers e funcionários do consulado, ficou então decidido que os artistas que não estavam na lista oficial fariam apenas um número.

E às 9 e pouco descerraram as cortinas para o "Bossa Nova at Carnegie Hall". Abriu o espetáculo o primeiro Sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes, cuja interpretação foi - como se pode constatar - aplaudidíssima. É verdade que o sistema de amplificação instalado não foi o recomendando por Frey. É verdade que muitos que estavam nos balcões e galerias não ouviram direito João Gilberto, Carlinhos Lyra, Tom Jobim, Cláudio Miranda e Roberto Menescal. Mas os que estavam bem colocados ouviram-nos muito bem e os aplaudiram intensamente.

O grande sucesso da noite foi sem dúvida a dupla Agostinho dos Santos & Luiz Bonfá, que "roubaram" literalmente a noite com seu pot-pourri de temas de "Orfeu do Carnaval". É verdade que ao lado de Agostinho, Bonfá, Sérgio Mendes, Cláudio Miranda, João Gilberto, Sérgio Ricardo e Oscar Castro Neves atuaram vários artistas, que eram, na época, praticamente amadores. Mas separar profissionais de sem i-amadores seria abalar o espírito deste disco, que é preliminarmente um documentário. Trata-se sem dúvida dum LP histórico, um microssulco onde está registrada a estréia da moderna música brasileira - a música que, segundo Paul Winter, é uma das poucas que evolui e se renova atualmente numa das mais famosas salas de concerto do mundo.

Como documento, "Bossa Nova at Carnegie Hall" é, sem dúvida, um lançamento único. A nosso ver, sua edição - que demorou, mas veio - era absolutamente indispensável, porque só com ela vamos poder provar que o show, ao contrário do que muitos propalaram, foi um magnífico, um enorme sucesso.

Relato de Walter Silva (Picapau)

São Paulo, além dos quatrocentos e tantos quilômetros que lhe separam do Rio de Janeiro, não tem e nunca teve salão verde ou cor de rosa do Copacabana Palace. Por isso, eu fiquei sabendo que haveria "bossa nova" no Carnegie Hall, exatamente uns vinte dias antes, quando, no desempenho de minha função de programador e apresentador do programa de discos "Pick Up do Picapau", então na Rádio Bandeirantes, resolvi sugerir à direção daquela emissora que se "cobrisse" a realização do festival, o que seria, como foi, um grande serviço à música brasileira e, também e principalmente, à divulgação de nossa mais importante manifestação melódica, rítmica e poética, que é o que se convencionou chamar de Bossa Nova.

Lá fomos nós, a expensas da própria emissora e com a obrigação de trazer a fita do "show" para irradiarmos dois dias após. Não irradiamos apenas, mas fizemos incluir o nome de Caetano Zama, cantor e compositor de São Paulo, que precisava estar presente. E por nada termos a omitir, dizemos sempre que o Brasil deve mais a Sidney Frey, a Dona Dora Vasconcellos e ao conselheiro Mário Dias Costa, muito mais do que a muitas e muitas embaixadas que andam
por aí. Estes nomes fizeram o nome musical do Brasil no exterior. O mais adiantado estágio musical popular do mundo, não seria conhecido, admirado e aplaudido, não fosse a abnegação destes três nomes.

A eles a profunda gratidão de todos os artistas presentes neste LP. Aos jornais e revistas do Brasil, sem exceção, nossa lástima profunda, por não terem sequer mandado representantes
para desmentir as mentiras que eles disseram, baseados em informações inescrupulosas, inverídicas, ditas por jornalistas americanos que "moram" dentro da primeira fila
do Carnegie Hall, acostumados a assistir ópera, ballets, mas nunca música popular tão avançada para seus calejados e "quadrados" ouvidos.

O festival foi um sucesso mesmo. Então, 3 mil pessoas dentro e mais de mil do lado de fora, o que é que significa? Então, se não foi sucesso, como chegou a ocupar as primeiras colocações em vendagem de discos? Oral, .. Foi sucesso sim, e dos maiúsculos. Tão sucesso, que outros festivais virão. Tão sucesso que a prova aí está: O MUNDO CANTA BOSSA NOVA. Agora, se não teve o cuidado plástico, cênico, técnico, que nós desejávamos, não temos culpa, nós brasileiros, que para lá fomos apenas para mostrar nossa música; e música não tem cor. Esta apresentação do Carnegie Hall, vale, em apenas urna noite, tudo o que se fez em anos pela música e pelas coisas do Brasil. E isto, repito, devemos a Mr. Sidney Frey, a Dona Dora Vasconcellos e a Mário Dias Costa, apesar das "fofocas" dos despeitados e "quadrados" habitantes da música brasileira. O presente lançamento AF está aqui com as virtudes e os defeitos de um show semi-improvisado.

Mas, não é isto o que interessa. O que interessa é que vocês, ao ouvi-lo, estarão ouvindo o mais importante depoimento sobre música popular brasileira, em todos os sentidos. Isto é o maior documento da consagração de um movimento feito por gente moça, culta e inteligente. Isto é o que interessa. Guardem-no, pois seus netos vão exigi-lo de você.

O raro álbum desta postagem foi lançado no Brasil, respectivamente em 1962 e 1974, pela gravadora Chantecler, com o selo (label) Audio Fidelity e contemplava as seguintes canções:

1. Samba de uma nota só (Sexteto de Sérgio Mendes);
2. Bossa Nova York (Carmem Costa, Bola Sete e José Paulo);
3. Zelão (Sérgio Ricardo);
4. Não faz assim (Quarteto de Oscar Castro Neves);
5. Influência do jazz (Quarteto de Oscar Castro Neves);
6. Manhã de carnaval (Luiz Bonfá);
7. Manhã de carnaval (Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá e Oscar Castro Neves);
8. A felicidade (Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
9. Outra vez (João Gilberto e Milton Banana);
10. Influência do jazz (Carlos Lyra e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
11. Ah! se eu pudesse (Ana Lúcia e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
12. Bossa nova em Nova York (Caetano Zama e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
13. Barquinho (Roberto Menescal e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
14. Amor no samba (Normando e o Quarteto de Oscar Castro Neves);
15. Passarinho (Chico Feitosa e o Quarteto de Oscar Castro Neves).















 Capa Alternativa



















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Um comentário:

  1. Boa postagem,Hedson,esse eu tenho o vinil original,grande abraço do Silvestre.

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